Já ouvira tanta coisa sobre amor. E naqueles dias sentia mais do que nunca uma vontade funda funda de ter bem mais. Ser mãos juntas, braços dados, pensamentos. Queria saber que, por mais que existisse a distância, haveria um olhar sobre ela. Sabia bem que lhe sobrariam motivos para se levantar. O relógio não seria mais o mesmo. As horas não passariam vagas. Os ponteiros seriam atropelados pela saudade e pelo bem querer. Aquele fogo quente de amor novo. Queria o novo. Olhos atentos ao detalhes, que depois, seriam revividos, segundo a segundo, assim que a ausência se posse. Vai-se o medo. Vem a saciedade. Vai-se a solidão e faz-se (oni)presença. Podia quase sentir aquilo tudo que já bem conhecia. Mas sabia que não era chegada a hora. E por mais que a calma lhe confortasse a alma, a porta ainda estava aberta.
As coisas não andavam mais sob seu comando. Estava fora do alcance e do controle. Ela, que gostava de tudo certo e na medida, esbravejava. E o tempo não correspondia. Corria com suas próprias pernas, metido. Ela queria agora, pra ontem, com pressa. Ele, independente, nem dava bola para os chiliques da mimada. Ela queria uma resposta, uma luz. (...) E nada! E o tempo seguia tranqüilo, sem compromisso, arrastando os chinelos. Com os olhos vidrados no tictaquear dos ponteiros, só lhe restava esperar.
Ela não queria mais a poeira dos móveis, o cheiro velho da lembrança. Precisava de mais do que isso. Ela queria sentir. Pulsando, invadindo a alma. Era preciso mais do que ela teve um dia. Tinha chegado a hora de guardar no fundo do armário tudo aquilo que não cabia. Flores, cartas, beijos. Tudo embrulhado com pompa. Tudo de mais precioso, mas que já não cabia nela. Não combinava com os móveis, não servia. Embrulhou seus sonhos e planos com seu pranto branco. Amarrou de saudade e cobriu com o tempo. Estava guardado, longe das mãos. Mas era um pedaço dela. Por mais que lhe escapasse aos dedos, nunca lhe sairia da memória.
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