O fim é sempre uma forma de recomeço. Por mais que ela lamente, torça o nariz, sinta aquela dor fina, o fim é sempre necessário. O novo não seria novo se o velho não tivesse passado da conta. Tudo tem um pouquinho de fim e começo. Todo fim tem um pouco de lamento, saudade e má vontade. Tem também um pouco de suor, falta de ar e soluço. Mas aí chega a hora de se despedir daquilo que não tem mais lugar, que pede só um pedaço da memória e um cantinho pra encostar. Chega a hora de se despedir das lembranças. E é doloroso o risco do esquecimento. Talvez por isso ela temesse o relógio e o ponteiro que corre depressa e varre tudo aquilo que alguns momentos deixaram. Cheiro, gosto, tato. Aquilo que antes era quase que palpável, vai ficando em preto e branco, distante das mãos, com cara de velho. Não tem mais som, cheiro, gosto. Como se o tempo evidenciasse a ausência, a perda, a velocidade, o caos. E a vontade do novo chega. Como não se pode ter o que viveu, vem a vontade de novos momentos. Mais coloridos, nítidos, sensoriais. Momentos que a gente conta, escreve nas paredes do quarto, grita. Pra que de alguma forma, quem sabe, eles fiquem eternizados.
Foram poucos os momentos de alívio. Aquele sossego branco e morno, daqueles que dá vontade de dormir. Ainda sentia sua alma ausente, seus passos leves, quando o sangue voltou a correr, nervoso. Ela não entendia como tudo podia mudar tão rápido. Não bastava ter pela metade. Não bastava ser pela metade. Ela teve que chorar pelos cantos, uma tristeza sufocada e maquiada. Maquiada de mulher forte. Mas ela não conseguia respirar. Era pesado demais esconder tudo aquilo em um só corpo. E ela já sentia saudades. Sentia falta dos momentos que planejou sozinha, que anotou na agenda, que viveu em pensamento. Sentia falta daquilo que ela quase teve. Quase. Era pesado não poder dizer o quanto aquilo doía fundo e fino.

Por que não viver com trilha sonora?

Quem nunca desejou ser um outro alguém? Mesmo que por instantes. Quem nunca pensou em viver algo além do que a vida lhe ofereceu? Ou mesmo em ser um personagem de um filme, livro ou novela? É bom esconder-se em outras vidas. É bom mascarar-se. A fantasia me atrai. A inebriante e calma fantasia anula a dura realidade, a responsabilidade do acerto, a dúvida sobre o final feliz. Como é simples a fantasia. Não tem dor, medo e tudo é possível. Até os amores impossíveis são bem mais possíveis que na vida real. Como é bom poder livrar-se do peso do julgamento. É bom e calmo. E como seria bom ter sempre uma trilha sonora ao fundo. A música intensifica as emoções. Poder viver o que se quer é algo sedutor.
Ela não compreendia como as coisas inevitavelmente tinham seu fim. Era assim com tudo e em toda parte. E principalmente com as coisas que eram boas. Essas passavam tão ligeiras e envergonhadas que escapavam aos olhos. Por isso tinham que ser revividas pra que tomassem forma. Até mesmo o sofrimento, mesmo aquele ardido e fino, até ele tinha fim. Era estranho sentir a calmaria que tomava sua alma depois de uma longa turbulência. Era estranho e bom. Não que ela gostasse do que se passava dentro dela. Era como se o mundo se ausentasse de suas entranhas por tempo indeterminado. E como sobreviver a si mesma? Ela não sabia. Tudo aquilo que fazia parte dela havia simplesmente desaparecido. Todas as dúvidas, inseguranças, contradições. Até mesmo o amor e o ódio, que viviam em pé de guerra. Era como se nunca tivessem existido. Ela mal conseguia lembrar-se. Como um mal quase crônico podia ter desaparecido? Era como se a cura existisse dentro dela, latente, dissimulada. Não era normal sentir-se tão leve. O que fazer agora que não tinha mais com o que se preocupar? Era como se tirasse férias de sua própria vida. Ela não sabia o que fazer. Mas sabia que como tudo, aquilo também passaria. O que restava era apenas viver. E quem sabe, depois nem se lembrar do que passou.

Estranha não. Vivente!

Ela era realmente estranha. Estranha. Não sei se essa é a palavra adequada à ela. Talvez, vivente. Por que isso ela sabia fazer. Vivia tanto que às vezes não se contentava em viver sua própria vida: queria também a dos outros. Mas não no sentido que esta a pensar, de mexerico. E sim de fantasia. Se imaginava estrela de cinema, atriz de novelas, cantora de teatro. Sempre algo que lhe trouxesse um pouquinho mais de emoção, um pouquinho mais de vontade de viver. Chorava às escondidas sem nem saber por que. Gostava de reviver cada instante de tristeza ou alegria; dizia que em tudo há algo de que se pode tirar um pouquinho mais. Para ela os sentimentos tinham que ser sentidos verdadeiramente, por isso tinham esse nome. Oscilava entre momentos de fragilidade e de extrema força. Queria estar vulnerável para que cada emoção pudesse penetrar em suas veias, para que cada parte do seu corpo fosse testemunha de que ela vivia. Mas também queria ser forte. Detestava a idéia de ser vítima. Quando estava triste, tirava de cada gota de lágrima sua mais profunda razão e logo depois se levantava forte e eu diria até sorridente, como se risse para a vida ou da vida. E quando se sentia inteira, olhava para todos como se fossem testemunhas do seu triunfo: ela estava pronta para outra.

NOTA DE APRESENTAÇÃO

Caro leitor, não sei se falo por mim ou por aquelas milhões de vozes que me desatinam dentro da mente. O que pretendo não é que o que escrevo seja lido ou que seja de seu agrado, por que afinal, são apenas pensamentos soltos. O objetivo é nada mais do que descarregar esse peso que me dói às costas. São tantos (e tantas) em uma só. Carrego tantas vidas dentro de um só corpo. Encontrei neste uma maneira sadia de ter mais espaço. Outra nota importante é que o que escrevo pode ou não referir-se a mim. Tenho que admitir o talento que tenho de observar. Nada em mim ou fora de mim passa despercebido. Por isso, o que aqui escrevo pode ter sido por mim vivido, observado ou até inventado. Gosto muito de fantasiar. Não se assustem com falta de títulos, nomes ou sentido. O que quero é dividir tudo o que se passa em mim.